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Contos Sufi
de Nasrudin
Mulla
Nasrudin (Khawajah Nasr Al-Din) viveu no século XIV. Contou e escreveu histórias
onde ele próprio era personagem. São histórias que atravessaram fronteiras
desde sua época, enraizando-se em várias culturas. Elas compõem um imenso
conjunto que integra a chamada Tradiçã Sufi, ou o Sufismo, seita religiosa
de antiga tradição persa e que se espalha pelo mundo até hoje.
Paseio
de Barco
Nasrudim
às vezes levava as pessoas para viajar em seu barco. Um dia, um pedagogo
exigente contratou-o para transportá-lo ao outro lado de um rio muito largo.
Assim que se lançaram à água, o sábio perguntou-lhe se faria mau tempo.
-
Não me pergunte nada sobre isto - disse Nasrudim.
-
Você nunca estudou gramática ?
-
Não
-
Neste caso, metade de sua vida foi desperdiçada."
O
Mulla não disse nada. Logo desabou uma terrível tempestade. O pequeno e
desorientado barco de Mulla começou a encher de água. Ele se inclinou para o
companheiro.
-
Alguma vez você aprendeu a nadar ?
-
Não – respondeu o pedante.
-
Neste caso, caro mestre, toda sua vida foi desperdiçada, pois estamos
afundando.
Desejos
A
festa reuniu todos os discípulos de Nasrudin. Comeram e beberam durante
muitas horas, sempre a conversar sobre a origem das estrelas e dos propósitos
da vida. Quando já era quase de madrugada, preparavam-se todos para voltar
para as suas casas. Restava um belo prato de doces sobre a mesa. Nasrudin
obrigou os seus discípulos a comê-lo. Um deles, porém, recusou:
-
O mestre está-nos a testar. Quer ver se conseguimos controlar os nossos
desejos.
-
Estás enganado. A melhor maneira de dominar um desejo, é vê-lo satisfeito.
Prefiro que
vocês fiquem com o doce no estômago do que no pensamento, que deve ser usado
para coisas mais nobres.
Nasrudin
e o Ovo
Certa
manhã, Nasrudin colocou um ovo embrulhado num lenço, foi para o meio da praça
da sua cidade, e chamou aqueles que estavam ali.
-
Hoje vamos ter um importante concurso! A quem descobrir o que está embrulhado
neste lenço eu dou de presente o ovo que está dentro!
As
pessoas se olharam, intrigadas, e responderam:
-
Como podemos saber? Ninguém aqui é capaz de fazer esse tipo de previsões!
Nasrudin
insistiu:
-
O que está neste lenço tem um centro que é amarelo como uma gema, cercado
de um líquido da cor da clara, que por sua vez está contido dentro de uma
casca que se parte facilmente. É um símbolo de fertilidade, e lembra-nos dos
pássaros que voam para seus ninhos. Então, quem é que me pode dizer o que
está aqui escondido?
Todos
os habitantes pensavam que Nasrudin tinha nas suas mãos um ovo, mas a
resposta era tão óbvia, que ninguém resolveu passar vergonha diante dos
outros. E se não fosse um ovo, mas algo muito importante, produto da fértil
imaginação mística dos sufis? Um centro amarelo podia significar algo do
sol, o líquido em seu redor talvez fosse um preparado alquímico. Não,
aquele louco estava a querer fazer alguém passar por ridículo. Nasrudin
perguntou mais duas vezes, e ninguém respondeu.
Casamento
Nasrudin
estava proseando com um conhecido , que lhe indagou:
- Mullah, responda-me, você nunca pensou em se casar?
- Sim, claro que já. Quando eu era jovem, determinei-me a achar o meu par
perfeito. Cruzei o deserto,
cheguei em Damasco, e conheci uma mulher belíssima e espiritualmente muito evoluída; mas as coisas triviais, do
dia a dia, a atrapalhavam.
Mudei de rumo e lá estava eu, em Isfahan; ali pude conhecer uma mulher com
dom para as coisas materiais, da vida caseira, e além disso se mostrou muito
espiritualizada. Porém, carecia de beleza física. Pensei: o que fazer?
E resolvi ir ao Cairo. Lá cheguei e logo fui apresentado a uma linda jovem,
que também era religiosa, boa cozinheira e conhecedora dos afazeres do lar.
Ali estava a minha mulher ideal.
- Entretanto você não se casou com ela. Porquê?
- Ah, meu prezado amigo,
ela também estava buscando o homem ideal.
O
contrabandista
Volta
e meia, Nasrudin atravessava a fronteira entre a Pérsia e a Grécia montado
no lombo de um burro. Toda vez passava com dois cestos cheios de palha e
voltava sem eles, arrastando-se a pé. Toda vez o guarda procurava por
contrabando. Nunca o encontrou.
-
O que é que você transporta, Nasrudin?
-
Sou contrabandista."
Anos
mais tarde, com uma aparência cada vez mais próspera, Nasrudin mudou-se para
o Egito. Lá encontrou um daqueles guardas de fronteira.
-
Diga-me, Mullá, agora que você está fora da jurisdição grega e persa,
instalado por aqui nesta vida boa - o que é que você contrabandeava, que
nunca conseguimos pegar?
-
Burros.
A
felicidade não está onde se procura
Nasrudin
encontrou um homem desconsolado sentado à beira do caminho e perguntou-lhe os
motivos de tanta aflição.
-
Não há nada na vida que interesse, irmão. Tenho dinheiro suficiente para não
precisar trabalhar e estou nesta viagem só para procurar algo mais
interessante do que a vida que levo em casa. Até agora, eu nada encontrei.
Sem
mais palavra, Nasrudin arrancou-lhe a mochila e fugiu com ela estrada abaixo,
correndo feito uma lebre. Como conhecia a região, foi capaz de tomar uma boa
distância. A estrada fazia uma curva e Nasrudin foi cortando o caminho por vários
atalhos, até que retornou à mesma estrada, muito à frente do homem que
havia roubado. Colocou a mochila bem do lado da estrada e escondeu-se à
espera do outro. Logo apareceu o miserável viajante, caminhando pela estrada
tortuosa, mais infeliz do que nunca pela perda da mochila. Assim que viu sua
propriedade bem ali, à mão, correu para pegá-la, dando gritos de alegria.
-
Essa é uma maneira de se produzir felicidade - disse Nasrudin.
Aprendendo
a conversar com Deus
Nasrudin, certa vez, estava sem um burrico que o ajudasse em seus afazeres.
Desesperado,
sem ter meios de encontrar um, começou a orar, pedindo a Deus que lhe
enviasse um burrico. Rezou por algum tempo e, certo dia, ao andar por uma
estrada, deparou-se com um homem montado num burrico e atrás levava um outro
burrico mais jovem. Nasrudin aproximou-se do homem e este lhe disse:
-
Mas que vergonha, eu estou trazendo um burrico de tão longe, estamos todos
esgotados, e aqui está este homem descansado, sem fazer nada!
E
ameaçando-o com uma espada, completou:
-
Vamos! Coloque o burrico nas suas costas e venha comigo até a próxima
cidade!’
Nasrudin,
com medo não disse nada, simplesmente colocou o burrico em suas costas e
seguiu o homem. Andaram por várias horas e Nasrudin estava exausto de tanto
peso. Ao entardecer, chegaram na cidade mais próxima e o homem simplesmente
fez Nasrudin descer o burrico das suas costas e seguiu adiante, sem sequer
agradecer.
Nasrudin
ergueu os seus olhos para o céu e disse:
-
Está bem, Deus. Aprendi a minha lição. Na próxima vez serei mais específico...
O
anúncio
Nasrudin
postou-se na praça do mercado e dirigiu-se à multidão:
-
Ó povo deste lugar! Querem conhecimento sem dificuldade, verdade sem
falsidade, realização sem esforço, progresso sem sacrifício?
Logo
juntou-se um grande número de pessoas, com todo mundo gritando:
-
Queremos, queremos!
-
Excelente! Era só para saber. Podem confiar em mim, que lhes contarei tudo a
respeito, caso algum dia descubra algo assim.
Há
mais luz por aqui
Alguém
viu Nasrudin procurando alguma coisa no chão.
"O
que é que você perdeu, Mullá?", perguntou-lhe
"Minha
chave", respondeu o Mullá.
Então,
os dois se ajoelharam para procurá-la. Um pouco depois, o sujeito
perguntou:"Onde foi exatamente que você perdeu esta chave?"
"Na
minha casa."
"Então
por que você está procurando por aqui?"
"Porque
aqui tem mais luz."
Em
visita a Índia
O
célebre e contraditório personagem sufi Mulla Nasrudin visitou a Índia.
Chegou a Calcutá e começou a passear por uma de suas movimentadas ruas. De
repente viu um homem que estava vendendo o que Nasrudin acreditou que eram
doces, ainda que na realidade fossem chiles apimentados. Nasrudin era muito
guloso e comprou uma grande quantidade dos supostos doces, dispondo-se a
dar-se um grande banquete. Estava muito contente, se sentou em um parque e
começou a comer chiles às dentadas.
Logo
que mordeu o primeiro dos chiles sentiu fogo no paladar. Eram tão apimentados
aqueles "doces" que ficou com a ponta do nariz vermelha e começou a
soltar lágrimas até os pés. Não obstante, Nasrudin continuava levando os
chiles à boca sem parar. Espirrava, chorava, fazia caretas de mal estar, mas
seguia devorando os chiles. Assombrado, um passante se aproximou e disse-lhe:
-
Amigo, não sabe que os chiles só se comem em pequenas quantidades?
Quase
sem poder falar, Nasrudin comentou:
-
Bom homem, creia-me, eu pensava que estava comprando doces.
Mas
Nasrudin seguia comendo chiles. O passante disse:
-
Bom, está bem, mas agora já sabes que não são doces. Por que segues
comendo-os?
Entre
tosses e soluços, Nasrudin disse:
-
Já que investi neles meu dinheiro, não vou jogá-los fora.
O
sermão de Nasrudin
Certo
dia, os moradores do vilarejo quiseram pregar uma peça em Nasrudin. Já que
era considerado uma espécie meio indefinível de homem santo, pediram-lhe
para fazer um sermão na mesquita. Ele concordou.Chegado o tal dia, Nasrudin
subiu ao púlpito e falou:
-
Ó fiéis! Sabem o que vou lhes dizer?
-
Não, não sabemos
-
Enquanto não saibam, não poderei falar nada. Gente muito ignorante, isso é
o que vocês são. Assim não dá para começarmos o que quer que seja - disse
o Mulla, profundamente indignado por aquele povo ignorante fazê-lo perder seu
tempo.
Desceu
do púlpito e foi para casa. Um tanto vexados, seguiram em comissão para,
mais uma vez, pedir a Nasrudin fazer um sermão na Sexta-feira seguinte, dia
de oração. Nasrudin começou a pregação com a mesma pergunta de antes.
Desta vez, a congregação respondeu numa única voz:
-
Sim, sabemos
-
Neste caso não há porque prendê-los aqui por mais tempo. Podem ir embora.
E
voltou para casa. Por fim, conseguiram persuadi-lo a realizar o sermão da
Sexta-feira seguinte, que começou com a mesma pergunta de antes.
-
Sabem ou não sabem?
A
congregação estava preparada.
-
Alguns sabem, outros não.
-
Excelente - disse Nasrudin - então, aqueles que sabem transmitam seus
conhecimento para àqueles que não sabem.
E
foi para casa.
Como
Nasrudin criou a verdade
"Estas
leis não tornam melhores as pessoas", disse Nasrudin ao Rei; "elas
devem praticar certas coisas de forma a sintonizarem-se com a verdade
interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente."
O
Rei decidiu que poderia fazer que as pessoas observassem a verdade – e o
faria. Ele poderia faze-las praticar a autenticidade. O acesso a sua cidade
era feito por uma ponte, sobre a qual o Rei ordenou que fosse construída uma
forca. Quando os portões foram abertos ao alvorecer do dia seguinte, o Capitão
da Guarda estava postado à frente de um pelotão para averiguar todos os que
ali entrassem. Um édito foi proclamado: "Todos serão interrogados.
Aquele que falar a verdade terá seu ingresso permitido. Se mentir, será
enforcado."
Nasrudin
deu um passo à frente.
"Aonde
vai?"
"Estou
a caminho da forca", respondeu Nasrudin calmamente.
"Não
acreditamos em você!"
"Muito
bem, se estiver mentindo, enforquem-me!"
"Mas
se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja
verdade!"
"Isso
mesmo: agora sabem o que é a verdade: a sua verdade!"
O
Tolo que era Sábio
Todos
os dias o Mullah Nasrudin ia esmolar na feira, e as pessoas adoravam vê-lo
fazendo o papel de tolo, com o seguinte truque: mostravam duas moedas, uma
valendo dez vezes mais que a outra. Nasrudin sempre escolhia a menor. A história
correu pelo condado. Dia após dia, grupos de homens e mulheres mostravam as
duas moedas, e Nasrudin sempre ficava com a menor. Até que apareceu um senhor
generoso, cansado de ver Nasrudin sendo ridicularizado daquela maneira.
Chamando-o a um canto da praça, disse:
-
Sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais
dinheiro e não será considerado idiota pelos outros.
-
O senhor parece ter razão, mas se eu escolher a moeda maior, as pessoas vão
deixar de me oferecer dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas. O
senhor não sabe quanto dinheiro já ganhei, usando este truque. Não há nada
de errado em se passar por tolo, se na verdade o que você está fazendo é
inteligente. Às vezes, é de muita sabedoria se passar por tolo e é muito
melhor passar por tolo e ser inteligente do que ter inteligência e usar
fazendo tolices.
"Os
sábios não dizem o que sabem, os tolos não sabem o que dizem!"
Nasrudin
e o Varal
Um
vizinho bateu à porta do Nasrudin e pediu:
- Nasrudin, você me empresta o varal de secar roupa que o de lá de casa se
quebrou?
-
Um momento. Vou perguntar à minha mulher.
Momentos
depois Nasrudin voltou e disse para o vizinho:
-
Desculpe vizinho, mas não vou poder emprestar o varal pois minha mulher está
secando farinha nele.
O
vizinho, surpreso, exclamou:
-
Mas Nasrudin, secando farinha no varal??!!
E
Nasrudin respondeu:
-
É... quando não se quer emprestar o varal, até farinha se seca nele...
Meu
olho dói!
Um
camponês aproximou-se de Nasrudin e queixando-se de que seu olho doía,
pediu-lhe um conselho.
Então
Hodja disse-lhe:
-
Outro dia meu molar doía, e não me acalmei enquanto não o arranquei.
Os
melhores conselhos
Nasrudin
começou a construir uma casa. Seus amigos, que tinham cada um sua própria
casa, e eram carpinteiros, pedreiros, o rodearam de conselhos. Mulla estava
radiante. Um após outro, e às vezes todos juntos, disseram-lhe o que fazer.
Nasrudin seguia docilmente as instruções que cada um lhe dava. Quando a
construção terminou, ela não se parecia em nada com uma casa.
-
Que curioso! - disse Nasrudin - e contudo eu fiz exactamente aquilo que cada
um de vocês me tinha dito para fazer!
O
barco e o homem letrado
Em
dada ocasião, Nasrudin estava em um barco com um homem letrado, quando o Mullá
disse algo que contrariava as regras gramaticais:
-
Você nunca estudou gramática? - perguntou o estudioso.
-
Não, nunca - respondeu Nasrudin.
-
Nesse caso, metade de sua vida se perdeu - retrucou outro.
Nasrudin
ficou em silêncio durante algum tempo, quando finalmente falou:
-
Você nunca aprendeu a nadar? - disse o Mullá ao homem letrado.
-
Não, nunca - este respondeu.
-
Então, nesse caso, toda a sua vida se perdeu. Estamos afundando.
Doente,
Graças a Deus
Nasrudin,
sentado na sala de espera do consultório médico, repetia em voz alta:
"Espero que eu esteja muito doente", o que intrigava os outros
pacientes. Quando o médico apareceu, Nasrudin repetia quase gritando:
"Espero
que eu esteja muito doente".
"Por
que você diz isso?", perguntou o médico.
"Detestaria
pensar em alguém que se sinta tão mal como eu não tenha nada!".
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